Motoristas de ônibus e pastores evangélicos sentem-se
prisioneiros da empresa que lhes paga o salário ou da igreja que os mantêm.
Estão infelizes, mas são dependentes daquilo que a comunidade lhe atribui como
recompensa.
Um olho na porta da frente, outro na de trás. Gente fazendo
sinal para entrar e gente querendo descer. Pensando bem, há algo de semelhante
entre o labor dos motoristas de ônibus e o dos pastores. Ambos, cada qual à sua
maneira, monitoram o ir e vir alheio; ambos são condutores de grupos, e
convivem com os fluxos e refluxos de pessoas. O detalhe é que esses condutores
não são os únicos responsáveis por aquilo que dirigem; mas aqueles que estão
nos bancos, sejam do ônibus ou da igreja, exigem bons serviços.
O motorista é o único dentro do ônibus que tem obrigação de
estar ali, e a ele cabe a mobilidade alheia. Então, que o faça em total
segurança, sem jamais desviar do trajeto. Os itinerários pré-estabelecidos têm
de ser seguidos. Proibido é sair do
caminho. Já a igreja não gosta de chamar o seu pastor de funcionário: prefere
entendê-lo na lógica da vocação. Alguém duvida que, hoje, esses seres humanos
estão sobrecarregados entre cuidar de pessoas e gerir empreendimentos
eclesiásticos? Na vida cristã, como caminho óbvio, o itinerário é reto, sempre
para frente. O público pagante tem o mapa na cabeça, e ai do líder que ousar
arejar a viagem do grupo.
O motorista vai trabalhar com sol ou chuva. A temperatura do
coletivo nada tem a ver com suas competências. Porém, as janelas que não
abrem,o ar condicionado que não gela, o teto escaldante pela energia do sol e o
vapor subindo do asfalto interferem em seu trabalho. É como numa panela de
pressão, só que sem a válvula de escape. Os pastores, por sua vez, suportam as
mesmas condições adversas que atingem as suas ovelhas. Tensões são crescentes
quando o condutor não os transporta a águas tranquilas e pastos verdes.
Motoristas são explorados e, ultimamente, solitários. A
figura cúmplice do cobrador, para bater um papo, comentar futebol ou chorar as
mazelas da vida, está em extinção. Afinal, quase todo mundo tem cartão de passe
automático. Horas diárias de trabalho duro sem ter com quem contar. E o pastor?
Sim, ele fala na igreja todos os domingos; mas, quem o ouve de fato?
Em congressos para pastores, quando deveria existir espaço
para abrir o coração, a pastorada é submetida a ter que ouvir celebridades que
são especialistas em obviedades, que apontam para metas e programas
eclesiásticos e parecem saber tudo do ofício, mas não pastoreiam uma
comunidade. A situação já é alarmante há muito tempo. As condições desumanas de
trabalho não são atenuadas com fraseados que remetem ao divino. Há uma epidemia
de pastores doentes física, espiritual e emocionalmente, por conta das
condições insalubres das suas atividades. Pregam sobre algo que não têm:
qualidade de vida. Falam sobre família saudável, mas a sua tem de cumprir o
papel de modelo da comunidade. Os filhos ouvem a queixa da igreja em relação
aos seus pais ou convivem com o adoecimento de projeções que beiram a
canonização. De uma forma ou de outra, o processo é de despersonalização,
desumanização e cansaço.
Motoristas de ônibus e pastores evangélicos são duas
categorias que não gozam de tanta simpatia da população. Uns são chamados de
incompetentes, despreparados; outros, de desonestos, aproveitadores. Em um e
outro caso, sentem-se prisioneiros da empresa que lhes paga o salário ou da
igreja que os mantêm. Estão infelizes, mas dependem emocional e financeiramente
daquilo que a comunidade lhes atribui como recompensa. A dependência é tão
grande que alguns, quando afastados das atividades, sofrem surtos de
abstinência.
E quem disse que bons pastores têm que gastar a vida nisso?
A comunidade evangélica estranha o termo “mística”. Mas é exatamente a mística
que haverá de nos salvar de nós mesmos. O modelo de pastores multi atarefados,
que precisam fazer o empreendimento crescer, leva a neuroses, e não a Deus.
Prefira o caminho alternativo, ainda que a viagem demore mais. E quem se
importa com as horas quando está onde quer, com quem ama e compartilhando
experiências com Deus?