quinta-feira, maio 22, 2008

De PedroSegundo@edu para Lula@org.br

Estimado patrício, Vosmecê não sabe como vivo bem. Leio os jornais do dia sem ter que esperar os navios que vêm da Europa. Sábado passado o correspondente do “The New York Times” escreveu um artigo sobre a Amazônia, perguntando-se quem é o dono da região. O jornalista definiu como “protecionismo territorial” aquilo que nós, bem como os ianques, conhecemos como soberania nacional. Dias antes, uma folha londrina dissera que os brasileiros precisam entender que a Amazônia é algo muito importante para ser coisa só deles. Na mesma direção já se manifestaram, em anos passados, o presidente comunista francês François Mitterrand e o ex-vice-presidente americano Albert Gore. Durante o meu reinado já prosperava junto aos povos cultos a idéia de que o nosso vale amazônico é ocupado por gente “imbecil e indolente”. Isso dá gravidade ao tema. Não se trata apenas de achar que a Amazônia não é brasileira, mas que, por ser o que é, brasileira não pode ser.
Vossa maçada chama-se meio ambiente. A minha chamou-se “livre navegação”. Remanchei o quanto pude para evitar que embarcações estrangeiras subissem o Amazonas. À época, sofremos enorme pressão internacional, sobretudo americana. Sei que por aí há uns grosseirões que ainda me chamam de “Pedro Banana”, um dissimulado sacerdote do atraso. Quero ser claro: ao lado das sinceras manifestações em defesa do meio ambiente há interessados em mutilar nossa soberania.
Conhecendo minha circunspecção e a maneira como pondero cada palavra, pois os monarcas não devem sair por aí dizendo tolices (os presidente podem), vosmicê avaliará minha preocupação. Quero trazer à memória do patrício uma encrenca do meu tempo.
Em 1850 o governo americano pediu-nos licença para que William Herndon, um oficial de sua Marinha, descesse o Amazonas com uma embarcação tripulada por umas dez pessoas. Falavam em “curiosidade científica” na busca de “conhecimentos geográficos”. Havia na Secretaria dos Negócios Estrangeiros quem quisesse negar a permissão, mas acabamos concedendo-a, pois sempre fui um soldado da ciência.
Outro dia o tenente Herndon me foi apresentado pelo general Vernon Walters. É um careca destemido e carrancudo. Na nossa conversa, voltou a reconhecer que estava atrás de outra coisa. O governo de Washington estudava a possibilidade de transferir a escravaria do Sul dos Estados Unidos para a Amazônia. Iam além: admitiam a possibilidade de instalar no nosso Vale o próprio empreendimento escravocrata americano. Se hoje os americanos falam em “protecionismo territorial”, em 1852 o tenente Herndon falava em “trabalho compulsório” para povoar o protetorado da Amazônia norte-americana.
Dissimule muito, esbraveje pouco, mas não ceda. O que eles querem é a nossa soberania. Em 1867, quando eu abri a navegação do Amazonas, os americanos não tinham mais escravos, pois a guerra civil acabara dois anos antes.
Despeço-me desejando-lhe êxito na sua experiência republicana e transmitindo-lhe os cumprimentos da imperatriz a dona Letícia. Como o senhor sabe, ambas têm a cidadania italiana.

Pedro de Alcantara

Elio Gaspari é jornalista
Gazeta do Povo, 21 de Maio de 2008

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